Machado de Assis

 

 

                                                                          Rio, 21 de fevereiro de 1865

 

Quinta-feira passada, às 6 horas e meia da tarde, foi recebido no palácio de São Cristóvão o Sr. D. Pedro Escondon, embaixador do México.

S. Excia. veio notificar a Sua Majestade a elevação de Maximiliano  ao trono do México, e apresentar as suas credenciais de ministro plenipotenciário daquele país nesta corte.

Nada temos que ver com o discurso do embaixador mexicano. É natural que Sua Excia. ache no presente estado de coisas de seu país uma obra justa e duradoura. Sendo assim, não nos demoraremos em desfiar algumas expressões do referido discurso; não indagaremos quais são os recíprocos interesses entre os dois impérios, nem criticaremos a identificação do governo existente entre os dois países.

O que merece a atenção no ato da recepção da embaixada é a resposta do soberano do Brasil.

Como essa resposta não podia deixar de ter importância política, e neste caráter caía debaixo da apreciação pública, procuramo-la com alvoroço, mesmo antes de ler o discurso do embaixador, o que S. Excia. nos perdoará.

Que é, pois, essa resposta? Oito linhas simples, discretas, reservadas. Não significa um ataque, mas também não é um aplauso. É um agradecimento ao soberano do México, e um voto para que se mantenham entre os dois países amigáveis relações. Aceita-se o fato, resguarda-se a apreciação do direito. As potências fracas, neste caso, imitam as potências fortes: suportam mais esta travessura do tutu das Tulherias.

Semelhante resposta deve e há de receber os aplausos de todo o país. Mas, se fosse possível que ela produzisse uma impressão má, ou que o espírito do soberano fosse tomado de arrependimento depois de proferi-la, aí estão as últimas correspondências do México para confirmar o país e o soberano nas suas disposições anteriores.

Fala-se no México, dizem as correspondências deste país publicadas nos jornais da Europa, em que o imperador Maximiliano I ia ceder à França a província de Sonora como penhor de dívida.

Querem mais claro?

Francamente, fatiga-nos insistir nesta questão mexicana, que já passou para a ordem dos fatos consumados; mas, quando as conclusões da invasão francesa vão aparecendo tão descaradamente, é impossível deixar de fazer, ao menos, um ligeiro protesto.

Dissemos que a resposta do imperador há de produzir o melhor efeito no espírito público; acrescentaremos que não o será em virtude do princípio da política americana, princípio vasto e elevado, mas ainda assim, menos vasto e elevado que o princípio da justiça universal. É à justiça universal que repugnam essas explorações em nome da força. A mesma latitude moral cobre a província de Sonora e o ducado de Sleswig.

Sabemos que estas linhas vão ser lidas por um distinto amigo nosso, que olha as coisas por um modo diverso, e que sobretudo, toma muito a peito a defesa pessoal do imperador Maximiliano. Folgamos em mencionar de passagem que as intenções daquele príncipe nunca foram suspeitas para nós. Cremos que ele sinceramente deseja fazer um governo liberal e plantar uma era de prosperidade no México. A modificação do gabinete mexicano e o rompimento com núncio do papa são os recentes sintomas da disposição liberal de Maximiliano. Além disso, o nosso amigo afirma com razão que o novo imperador, moço, ilustrado, liberal, nutre a legítima ambição de guiar uma nação enérgica e robusta a uma posição digna de inveja. A origem espanhola do México, acrescenta o nosso amigo, influiu poderosamente no espírito de Maximiliano, que nutre decidida simpatia pela raça do Cid, cuja língua fala admiravelmente.

Estamos longe de contestar nada disso; mas precisamos acaso acrescentar uma verdade comezinha, a saber, que as melhores intenções deste mundo e os esforços mais sinceros não dão a menor parcela de virtude àquilo que teve origem do erro, nem transformam a natureza do fato consumado?

Apesar da importância política que teve a recepção do embaixador mexicano, nem esse fato, nem a eleição de eleitores para senador, ocupam neste momento a atenção pública. Todos os espíritos estão voltados para o Sul. A guerra é o fato que trabalha em todas as cabeças, que provoca todas as dedicações, que desperta todos os sentimentos nacionais.

De cada ponto do império surge um grito, levanta-se um braço, estende-se uma oferta. A educação dada à geração atual não era de certo própria para inspirar os grandes movimentos, mas há no povo brasileiro um sentimento íntimo que resiste a todos os contratempos e vive mesmo através do sono de muitos anos. Graças a essa virtude máxima do povo, não faltarão elementos para a vitória, nem escassearão braços para levar afronta do país.

Neste movimento geral é agradáve1 ver o modo espontâneo por que os estrangeiros fraternizam conosco. Sem referir às diversas manifestações efetuadas nas províncias por muitos desses hóspedes generosos, citaremos as duas que acabam de ter lugar nesta corte, por parte do comércio português e do comércio alemão, que se reúnem para uma coleta, em favor do Estado.

Não se devia esperar menos de tão amigos povos.

É porque o espirito público está exclusivamente dominado por este sentimento de nobre entusiasmo, que nos admirou o anúncio de bailes mascarados; e realmente, se não fora tão impertinente anúncio nem sabíamos que o carnaval era domingo.   

Não queremos pregar o terror público, mas lá nos parece que os empresários de semelhantes bailes hão de perder o tempo e o dinheiro – e aqueles que ainda assim acudirem a esses divertimentos, não duvidamos aconselhar uma aplicação melhor de suas quantias: –  é dá-las para as necessidades do Estado ou para as famílias dos bravos que morrerem.

Hão de perdoar-nos se isto é um erro.

Antes de dizer duas palavras da exposição das Belas Artes – outro fato que passou despercebido – consagraremos duas linhas de louvor à câmara municipal da corte.

Os leitores hão de lembrar-se que, por ocasião da morte de Gonçalves Dias, o Diário do Rio indicou uma idéia à câmara municipal: a de dar à rua dos Latoeiros o nome do eminente poeta lírico, que ali morou durante muitos anos. Era uma homenagem à memória do poeta.

A câmara municipal atendeu a este conselho. O Sr. Dr. Dias da Cruz, um dos vereadores mais distintos, propôs à câmara a mudança do nome da rua dos Latoeiros e a câmara adotou a proposta sem discussão.

Folgamos de ver a municipalidade fluminense tomar a iniciativa de tais reformas; mas desejamos que ela não se detenha nesta.

Há outras ruas cujos nomes, tão ridículos e sensaborões, como o da rua dos Latoeiros, carecem de reforma igual. As ruas do Sabão, Fogo, Violas, Pescadores e outras muitas podiam trocar os seus nomes por outros que recordassem uma individualidade histórica ou um feito nacional, mesmo independente da circunstância especial que se dá com a ex-rua dos Latoeiros.

É isso que se faz atualmente em Paris,. graças à iniciativa do Sr. Haussmann. Quase todos os poetas, prosadores, dramaturgos, estadistas célebres da França deram os seus nomes às ruas da capital do mundo.

As boas disposições da câmara devem ser aproveitadas. O Sr. vereador Dias da Cruz parece-nos, pela iniciativa que tomou, o mais próprio para redigir um projeto neste sentido, e completo em todas as suas partes, que a câmara não teria dúvida em aprovar.

Entretanto, demos desde já os nossos emboras à câmara municipal, que, ao inverso das anteriores, saiu do programa ramerrameiro e tacanho, e não hesitou em fazer uma homenagem a um grande poeta.

Vamos agora à exposição da Academia de Belas-Artes.

Foi domingo que se inaugurou essa exposição, com a presença de Suas Majestades e o cerimonial do costume.

Parece-nos que a exposição deste ano é menos copiosa que a dos anos anteriores, não só no número total dos objetos expostos, como no número dos trabalhos que merecem uma distinção. Não indagaremos a causa de semelhante fato, que não é de certo a guerra com o estrangeiro. A verdade é que uma grande parte dos objetos expostos pertencem a expositores externos e alguns estrangeiros; pouca cousa há dos alunos da academia, pela razão simples de que o número dos alunos é muito escasso.

Do pouco que há dos alunos distinguem-se, todavia, alguns trabalhos de desenho, escultura e ornatos. Nesta parte referimo-nos, não só aos alunos que cursam as aulas da academia, como aos que se acham em Paris, como pensionistas.

Citaremos alguns quadros dos Srs. Mota, Vitor e Arsênio; citaremos a Carioca do Sr. Pedro Américo, que foi ultimamente objeto de uma discussão renhida, em que os gritos de – sublime! respondiam aos gritos de – detestável! – mas que não é nem detestável, nem sublime. O meio termo não é uma posição cômoda, mas nós a tomamos afoitamente, reconhecendo na Carioca uma bela prova de um talento gracioso e correto, mas não limpa de alguns defeitos que lhe foram apontados.

Do Sr. Carlos Luís do Nascimento existem alguns painéis restaurados, um de Lesueur, outro de Campora, e três de autor desconhecido. O Sr. Nascimento tem um pincel especial e inteligente para este gênero de trabalhos.

Alguns quadros do Sr. Vinet merecem a atenção dos visitantes entendidos, especialmente o Rancho e as Pedras do Ribeirão Vermelho.

Já conhecido por excelentes trabalhos de escultura, o Sr. Chaves Pinheiro apresentou o modelo de um cavalo para estátua eqüestre, que é uma das obras mais corretamente acabadas da presente exposição.

Citaremos ainda na classe da escultura os excelentes bustos do Sr. Formili e as medalhas do Sr. Cristiano Guster.

O Sr. Costa Guimarães expôs dois trabalhos de miniatura, a Melancolia, de Landelle, e um retrato da Pompadour. Ambas as miniaturas são feitas sobre marfim e do mais perfeito acabado. Todavia não hesitamos em preferir a Melancolia. O Sr. Costa Guimarães é um dos melhores artistas que têm saído da nossa academia.

Os trabalhos fotográficos do Sr. Pacheco avantajam-se a todos por uma rara perfeição que, no dizer de um velho artista   e poeta, igualam os melhores da Europa.

Mas não são só essas obras que igualam as melhores da Europa; os trabalhos do estabelecimento de ótica do Sr. José Maria dos Reis chamam a atenção dos visitantes na sala que fica em frente à porta do edifício. Uma árvore feita de prata e coberta por uma redoma de vidro, sustenta nas pontas de suas palmas cerca de sessenta lunetas, óculos e pince-nez, do mais perfeito lavor. Cremos que na Europa não se fabrica com mais perfeição. Acresce que os objetos expostos são simplesmente objetos de consumo, tirados do trabalho regular e comum do estabelecimento. Quiséramos dar aqui a relação detalhada dos diferentes objetos expostos pelo Sr. Reis, mas falta-nos espaço. Cumpre dizer que a árvore de prata, em que pendem tão belos frutos, é igualmente fabricada no mesmo estabelecimento.

Citaremos por último a porta principal da igreja de S. Francisco de Paula, pelo Sr. A. de Padua e Castro, e um relógio do Sr. Hentiot. A primeira, sobretudo, é de um primoroso trabalho.

Tal é o balanço da exposição.

Sem sair do terreno da arte, concluiremos o folhetim, mencionando o concerto dado pelo Sr. Bonetti, no teatro de S. Januário, sábado passado. O Sr. Bonetti é um artista de talento, e de uma modéstia que ainda mais lho realça. Cantou nessa noite a Sra. Isabela Alba, recebendo mui merecidos aplausos. A orquestra, dirigida pelo distinto professor Bensanzoni, era excelente.